quarta-feira, janeiro 26, 2005

Recensão à "Conclusão" in A legitimação em Literatura de S.R. LOPES

Por uma Instabilidade do Cânone?

Neste trabalho nos ocuparemos de analisar a “Conclusão” do livro A Legitimação em Literatura de Silvina Rodrigues Lopes. A autora coloca-se do lado do não reconhecimento de um objecto que configuraria o literário como especificidade. A literatura não teria uma matéria própria que se demarcaria daquilo que seria o “não literário”.

Nessa Conclusão tratam-se questões fundamentais para a abordagem dos textos que formam parte do campo da literatura. Entram em relação e às vezes em oposição, diversas instituições como a Literatura/ Teoria da Literatura e Literatura/ Instituição Literária.

A autora reconhece como resultado positivo o levantamento de numerosas questões e interrogações sobre o fenómeno literário, sem que se tenha chegado de maneira forçada a qualquer conclusão ou demonstração. Isto é assim porque se afirma nesse fenómeno uma situação paradoxal que inviabilizaria a existência de um princípio original e/ou determinante.

A relação da Literatura com sua Teoria é instável e de inseparabilidade, pois não poderiam se isolar uma da outra; é que a Literatura carece de um fundamento inicial que a determinaria e a Teoria não poderia só abstrair-se num mar de conceitos a priori com prescindência dum corpus concreto possuidor de necessidades próprias e portador de sua própria teoria.

Da outra relação entre Literatura e sua Instituição, levanta-se o problema do que talvez como desenvolvimento das consequências dos princípios defendidos nesta conclusão, seja o mais saliente não pelo espaço que ocupa, mas pela concretude e aplicabilidade: a questão do Cânone.

Ora bem, se a Literatura não deve se subordinar à sua Instituição porque esta procura a imobilizar e ordenar as obras duma vez e para sempre numa aura de sacralização mística, como deveria se tratar o Cânone se nos ajustamos à posição da Autora? Como decorrência dos postulados defendidos por Silvina Rodrigues Lopes, o Cânone deveria ser provisório, sujeito a avaliações constantes, não definitivo, instável e não petrificado, o que na prática não se produz. Notamos aqui quase um componente utópico, pois como se pode sair do Cânone uma vez que muitas obras já estão confortavelmente instaladas nessa posição glorificadora. Posição com caracteres de imutabilidade e que carregam um componente simbólico não só próprio do campo literário.

O Texto em análise defende com firmeza que não se percebe qual a necessidade da Legitimação literária; seja pela sua impossibilidade, pois o fenómeno é muito fluido e portanto não se pode fixar; ou porque resulta estéril e incompleto por não poder-se demonstrar qual o fundamento original do literário, convertendo-se tudo ao final de contas numa simples questão de fé religiosa e de superstição.

É que a Autora reconhece que não pode haver um modelo único de análise e de abordagem dos Textos e portanto não pode existir uma legitimação absoluta. O que poderiam existir seriam legitimações parciais e sempre precárias.

Uma característica do texto em recensão é a valoração positiva que encerra o campo semântico do “dinâmico”; ex. : o devir, o fluido, a metamorfose, a mobilidade, a deslocação etc., em oposição a tudo aquilo que não se coloca sob contínua revisão e releitura.

Encontramos que a Autora parte de uma ideia de Literatura como tensão entre o “comunicável”, isto é o que pode ser transmitido e o “indizível”, o que não é susceptível de comunicação. Essa tensão gera o paradoxo de quando a Instituição literária pretende legitimar ou canonizar, elimina a singularidade das obras e as transformas em modelos intocáveis a copiar.

Fala-se então que a Literatura pretende “legitimar o improvável” e que não existem normas precedentes subordinantes. Isto significa que em Literatura nenhuma lei actuaria à maneira de um Poder Constituinte, exterior e hierarquicamente superior às outras leis.

Mas essa legitimação improvável que se postula como actuaria em relação ao cânone?
a) Possibilitaria diversas abordagens e leituras para examinar periodicamente seu valor na contemporaneidade?
b) Ou alargaria de maneira intrépida seu campo de acção, transpondo limites que poderiam chegar a derrubar obras canónicas pelo seu envelhecimento e instaurar outras?


A aplicação deste gesto radical da Instituição Literária que o texto em análise viabilizaria e propiciaria, resulta claramente utópico.

Em relação ao problema da legitimidade junto com ele aparece a questão da justificação, mas a perspectiva de Silvina Rodrigues Lopes a lateraliza pois a Literatura não precisa de se justificar. A literatura oscila entre encontrar seu fundamento ora na racionalidade ora na sacralização mítica do Romantismo.

Os discursos legitimadores nesse campo (o literário) são imprescindíveis com a condição de sua auto-recusa de legitimação total ou absoluta, universal e imutável. A consequência desta posição de materializar um princípio determinante, seja a literariedade ou alguma outra essência ideal é a de não atender os textos na sua articulação como modo de produção e actividade subjectiva pré-consciente.

A autonomia da Literatura radica em que pode “dizer tudo”, mas que não existe em si mesma. É através das “leituras” que se fazem que as obras podem dialogar e serem usadas como “ponto de partida” e não como demonstrações de uma grelha teórica.

O domínio literário caracteriza-se pela tensão entre estabilidade/ instabilidade e do texto em recensão se deriva toda uma metodologia do uso do texto literário: não linear, sem circularidades, descentrada. Cada repetição (cada leitura) encerra uma diferença, um acrescentamento ou um resto. Essa mobilidade escapa aos fundamentos últimos ou primeiros. Metodologia da não sacralidade. Que assume que não é possível encontrar uma síntese final, uma solução tranquilizadora.

Não se postula o abandono da exigência de teorizações pois se reconhece sua necessidade, mas sobretudo não duma maneira autotélica senão em relação com a própria teoria que cada obra traz consigo e sem pretender conseguir juízos universais definitivos. Vale dizer o que teríamos como abordagem adequada e para representá-lo numa fórmula seria: OBRA (com sua metalinguagem interna) + METALINGUAGEM EXTERNA.

Uma questão que poderíamos colocar à Autora é sua concepção de que a Literatura constitui uma “prática desestabilizadora”. Isto acarretaria uma espécie de conceito sobre o que é Literário. Uma certa especificidade. Pois então que acontece com essa parte da Literatura que não desestabiliza. Que não transgrede os aspectos formais ou estruturais, que não traduz essa tensão entre o comunicável e o incomunicável pois se situa do lado do constativo e do transmissível?

CONCLUSÕES

1- A Autora não reconhece nenhum tipo de essencialidade no fenómeno literário, pois este não existiria em si mesmo.

2- O literário assume o paradoxo de trazer consigo a tensão entre o transmissível e o não transmissível.

3- De haver legitimação será indirecta e não servirá para fechar o diálogo entre as obras, o que resulta numa instabilidade das avaliações e das sentenças de julgamento em constante revisão.


Osvaldo Oscar Ferreyra

4 Comments:

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